Terroirs: o valor invisível que transforma produtos em identidade no Brasil
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Durante anos, o conceito de terroir foi tratado no Brasil como um estrangeirismo sofisticado, quase exclusivo do universo dos vinhos. Mas, longe das taças e dos vinhedos europeus, ele começa a ganhar contornos próprios – e cada vez mais brasileiros.
Hoje, o termo se desloca do campo técnico para o centro de uma discussão mais ampla sobre identidade, território e valor. A própria palavra já diz muito. De origem francesa, terroir significa, de forma literal, “território” ou “lugar de origem”. Na prática, no entanto, o conceito vai além da tradução: ele carrega a ideia de tudo aquilo que torna um produto único e impossível de ser reproduzido de forma exatamente igual em outro lugar.
Terroir, assim, é a combinação única entre território, clima, solo, saberes locais e práticas humanas que dão origem a um produto com identidade própria. É o que faz um queijo de uma região ter sabor diferente de outro, mesmo quando produzido com os mesmos ingredientes. É o que transforma um alimento, uma bebida ou até uma experiência turística em algo genuinamente singular.
Para Marta Rossi, CEO da Rossi & Zorzanello, empresa à frente do Connection Terroirs do Brasil, esse movimento revela uma mudança mais profunda na forma como o país enxerga seus próprios territórios. “O terroir traduz algo que o Brasil tem de mais potente, que é a diversidade. Cada território carrega uma história, um modo de fazer e uma identidade que precisam ser reconhecidos e valorizados.”
Nesse contexto, alguns produtos ajudam a traduzir o conceito de forma concreta. No interior de Goiás, em Mara Rosa, o açafrão deixou de ser apenas uma commodity agrícola para se consolidar como expressão de território. Cultivado de forma manual e com forte presença da agricultura familiar, o produto se destaca pela alta concentração de curcumina e pela pureza – características diretamente associadas às condições locais. Estudos conduzidos por instituições como a Universidade Federal de Goiás, o Ministério da Agricultura e a EMATER comprovam que o produto é superior inclusive ao famoso açafrão indiano.
O reconhecimento veio com o selo de Indicação Geográfica, que reposicionou o produto no mercado e ampliou sua visibilidade. “A Indicação Geográfica abriu portas que nós nunca imaginaríamos. Jornalistas, chefs e compradores passaram a nos procurar”, afirma Patrícia Aguiar, gerente da cooperativa que reúne cerca de 40 produtores.
Mais do que um diferencial técnico, o caso evidencia como o terroir se materializa na prática: um produto que carrega atributos únicos, mas também uma rede de saberes, trabalho coletivo e impacto econômico direto. Durante a colheita, realizada manualmente, centenas de trabalhadores são mobilizados, movimentando a economia local e ampliando a renda de famílias da região.
Em um país de dimensões continentais e enorme diversidade de climas e solos, estima-se que existam milhares de terroirs em potencial – muitos deles ainda em processo de reconhecimento e valorização. Um terroir pode estar em uma região inteira ou em uma pequena propriedade rural.
Terroir x Indicação Geográfica
Embora muitas vezes associados, terroir e Indicação Geográfica (IG) não são sinônimos. A Indicação Geográfica é um reconhecimento formal, concedido a produtos ou serviços que possuem origem comprovada e características vinculadas a determinado território. No Brasil, esse processo é regulamentado pelo Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI).
O açafrão de Mara Rosa ilustra bem essa relação. O terroir já existia – nas condições naturais e no saber acumulado pelos produtores –, mas foi a certificação que estruturou sua cadeia e ampliou seu alcance. O selo trouxe exigências, como rastreabilidade e controle de qualidade, mas também consolidou o produto como ativo econômico e simbólico.
O Brasil como potência de terroirs
Da uva cultivada na Serra Gaúcha ao cacau do Sul da Bahia, passando pelos cafés especiais de Minas Gerais e pelos queijos artesanais espalhados pelo país, o terroir brasileiro revela um mosaico de identidades que começa a ganhar protagonismo.
Por trás desses territórios, estão histórias como a da produtora Magna de Fátima Leles Vieira Moreira Pimentel. Ela deixou a enfermagem em Goiânia para retornar à cidade de origem e apostar no cultivo de açafrão. Começou pequena, em um ambiente predominantemente masculino, e enfrentou desconfiança.
“Minha primeira colheita foi pequena, ninguém acreditava muito. Mas fui persistindo. Hoje, minha produção já ultrapassa três toneladas”, relata. Para ela, a Indicação Geográfica não apenas transformou sua trajetória, mas abriu espaço para que outras mulheres ocupem o setor.
Em um cenário no qual consumidores valorizam cada vez mais autenticidade, origem e propósito, esses territórios deixam de ser apenas locais de produção para se tornarem ativos estratégicos para a gastronomia, para o comércio e também para o turismo.
Connection Terroirs do Brasil: nome, forma e visibilidade
O Connection Terroirs do Brasil, evento promovido pela Rossi & Zorzanello, em parceria com o Sebrae, foi criado para ser um espaço de organização e visibilidade desse patrimônio ainda disperso. Ao reunir produtores, especialistas, chefs, empreendedores e profissionais do turismo, propõe uma imersão no conceito de terroir sob diferentes perspectivas, ajudando a traduzir, nomear e valorizar identidades que muitas vezes ainda não estão plenamente reconhecidas.
Com o tema “feito com alma, a muitas mãos”, o evento reforça a essência coletiva que caracteriza especialmente os produtos com Indicação Geográfica, resultado do saber-fazer compartilhado entre gerações e profundamente conectado aos territórios de origem.
Para a CEO da Rossi & Zorzanello, Marta Rossi, o momento é de ampliar o olhar sobre o potencial brasileiro. “O terroir traduz algo que o Brasil tem de mais potente, que é a diversidade. Cada território carrega uma história, um modo de fazer e uma identidade que precisam ser reconhecidos e valorizados. O Connection nasce justamente com esse propósito, de conectar essas origens, ampliar esse olhar e mostrar que o terroir também é uma experiência, não só um produto.”
Ao desmistificar o conceito, o evento reforça uma ideia central: o terroir não pertence apenas a grandes produtores ou regiões consagradas – ele está presente em todo lugar onde há identidade, história e relação genuína com o território.
“A proposta é provocar um novo olhar: entender o terroir não como um termo distante ou elitizado, mas como uma ferramenta estratégica para o desenvolvimento regional, para a construção de marcas autênticas e para a criação de experiências turísticas mais significativas”, afirma Marta Rossi.
Texto: Renata Mattos | fernando@rossiezorzanello.com.br
Foto: Cooperativa de Açafrão de Mara Rosa